MIOMECTOMIA HISTEROSCÓPIA
Autor : Ricardo Bassil Lasmar
INDICAÇÃO
A miomectomia histeroscópica
é um procedimento cirúrgico endoscópico
avançado, que se apresenta como a melhor opção
para tratamento dos miomas submucosos, principalmente
nos casos de infertilidade e/ou quando há desejo
de cirurgia conservadora.
DIAGNÓSTICO
A propedêutica
tem a história clínica como ponto de partida,
onde há queixas de sangramento uterino irregular,
com menometrorragia e dismenorréia.
A ultra-sonografia identifica o tumor no interior da cavidade,
sendo que, em alguns casos a paciente tem a suspeita diagnóstica
na histerossalpingografia, esta realizada em pesquisa
de esterilidade.
A histeroscopia confirma o diagnóstico, fazendo
a descrição do mioma, sua dimensão,
base, localização, número, suspeita
de degeneração e grau de comprometimento
da cavidade uterina.
A histerossonografia acrescenta um dado importante na
investigação pré-operatória,
nos mioma submucosos com componente intramural, o grau
de penetração do mioma no miométrio
e a distância livre do miométrio a serosa.
DIAGÓSTICO
DIFERENCIAL
A histeroscopia diagnóstica
com biópsia dirigida, faz o diagnóstico
diferencial de mioma submucoso com: mioma intramural comprimindo
a cavidade, pólipo endometrial fibroso, restos
embrionários e adenocarcinoma.
A textura, consistência, superfície, aspecto
vascular e coloração do mioma submucoso
é muito característica, podendo-se firmar
o diagnóstico, mesmo quando a biópsia não
é realizada pela dificuldade de retirada de fragmento
de um tecido tão duro. À histeroscopia o
mioma apresenta-se como um tumor branco, duro, com superfície
lisa ou bocelada, com vasos dilatados na superfície.
CLASSIFICAÇÃO
A classificação
do mioma demonstra o grau de penetração
deste no miométrio. Esta avaliação
se faz necessária para correta indicação
cirúrgica, decisão sobre o uso de análogos
e a possível necessidade de mais de uma cirurgia.
Quanto maior a porção do mioma no miométrio,
mais difícil é a abordagem por via histeroscópica,
com maior chance de perfuração uterina,
sangramento per e pós operatório, absorção
rápida de fluído de distensão uterina,
lesão do miométrio normal e sinéquias
uterina extensas no pós operatório.
Segundo a Sociedade
Européia de Endoscopia Ginecológica o mioma
submucoso é classificado em:
NÍVEL 0- MIOMA TOTALMENTE NA CAVIDADE UTERINA.
NÍVEL 1- MAIS DE 50 % DO VOLUME NO INTERIOR DA
CAVIDADE UTERINA
NÍVEL 2- MENOS DE 50 % DO VOLUME NO INTERIOR DA
CAVIDADE
UTERINA.
LOCALIZAÇÃO
De acordo com a localização
pode-se esperar maiores dificuldades na miomectomia, como
nos casos de mioma cornual, onde a parede uterina é
mais delgada e a chance de perfuração é
maior, ou nos de parede lateral, onde o risco de sangramento
e "overload" aumentam, pela proximidade de vasos
calibrosos. No mioma cervical existe a dificuldade de
dilatação do colo para introdução
do ressectoscópio, assim como, a distensão
satisfatória do campo operatório.
Os miomas podem ter localização:
- CERVICAL
- PAREDE ANTERIOR
- PAREDE POSTERIOR
- PAREDE LATERAL
- FÚNDICO
- CORNUAL
AVALIAÇÃO
PRÉ-OPERATÓRIA.
O mioma submucoso tem
sempre indicação cirúrgica nas pacientes
jovens, pois apresentam quadro de sangramento uterino
anormal, independente de suas dimensões. Nas pacientes
em menopausa o mioma submucoso nem sempre provoca sintomatologia,
porém com a reposição hormonal o
sangramento uterino irregular pode acontecer, levando
agora a indicação cirúrgica.
Na miomectomia histeroscópica a anamenese é
de extrema importância, assim como a propedêutica
precisa, para que a conduta cirúrgica seja correta.
Algumas questões devem ser respondidas antes da
cirurgia:
1 - HÁ O DESEJO
DE GRAVIDEZ FUTURA ?
2 - QUANTOS MIOMAS EXISTEM ?.
3 - QUAL A CLASSIFICAÇÃO DOS MIOMAS?
4 - ONDE SE LOCALIZAM OS MIOMAS?
5- QUAL O TAMANHO DELE E DA SUA BASE?
Caso a paciente não
deseje gravidez pode ser realizada a histerectomia ou
mesmo a miomectomia seguida de endometrectomia, o que
acabaria ou diminuiria o sangramento uterino.
Múltiplos miomas dificultam a cirurgia, aumentando
o sangramento, tempo cirúrgico, além de
elevar a chances de sinéquias intra-uterina.
Toda esta avaliação prévia é
extremamente necessária na miomectomia histeroscópica,
afim de preparar o cirurgião e a paciente para
as dificuldades e possíveis sucesso do tratamento
a ser realizado. A miomectomia histeroscópica esta
fundamentada em um tripé: desejo da paciente pela
cirurgia conservadora, capacidade do cirurgião
e possibilidade técnica de resolução.
A conversa clara e franca com a paciente, com todos os
dados e possibilidades, permite que a administração
de análogos seja suportada e que a opção
por mais de um ato operatório não abale
a cliente ou o médico.
TÉCNICA
CIRÚRGICA
O meio de distensão
é líquido, podendo ser utilizada a glicina
a 1,5% ou a solução de manitol-sorbitol.
Após preparar o colo do útero, apreende-se
este com a pinça de Pozzi, tracionando-o .
Nova histeroscopia diagnóstica deve ser realizada.
Com velas de Hegar dilata-se o colo até a vela
8 ou 9.
Introduz-se a camisa operatória do ressectoscópio
com mandril, que equivale a vela de Hegar número
9.
Acopla-se o instrumento de trabalho, já com alça
em "semicírculo" ou "L", ligado
a corrente monopolar de corte contínuo.
Nos miomas nível 0, a fragilização
da base com a alça em "L", seguida de
apreensão do mioma com rotação, seria
a melhor opção sempre que possível.
Isto diminuiria o sangramento, tempo operatório
e risco de overload, sendo apenas necessária a
fragmentação do nódulo solto na cavidade.
Nos miomas com base larga faz-se a técnica de "fatiamento"
onde o nódulo é seccionado em pequenos pedaços,
pelo corte da alça em "L "movimentando-se
do fundo para o colo.
Nos miomas nível 1 pode-se realizar a miomectomia
em 2 tempos, com a ressecção em fatiamento
até o limite de visão histeroscópica,
seguido de administração de análogos
por 2 a 3 meses e nova intervenção cirúrgica.
No segundo ato operatório o componente intramural
do mioma se apresentará no interior da cavidade
uterina, como se fosse um mioma submucoso, sendo retirado
da mesma forma.
Existem opções táticas e técnicas
na tentativa de concretizar a miomectomia em apenas um
ato operatório. Estas são :
1 - PRESSÃO
INTERMITEMTE SOBRE O MIOMA E ÚTERO.
A distensão e contração do miométrio
faz com que a porção intramural do mioma
se projete para o interior da cavidade uterina, podendo
ser seccionado sob visão direta.
2 - MASSAGEAMENTO MANUAL DO ÚTERO.
3 - MOBILIZAÇÃO DIRETA SOB O MIOMA.-
ENUCLEAÇÃO- Esta é uma técnica
desenvolvida e aplicada no nosso serviço, tem o
mesmo princípio da miomectomia laparotômica
e laparoscópica, onde a liberação
do fibroma da parede uterina acontece através da
mobilização direta no mioma. Na miomectomia
histeroscópica, utilizando-se a alça em
"L " fazem-se tiros de corrente de corte circundando
a borda do mioma, sempre com a alça tracionando
no sentido do colo do útero, fazendo-se que deslize-se
pela pseudo cápsula do nódulo, tendo-se
a liberação deste através da bascula
no próprio mioma. A repetição dos
movimentos em todos os lados do mioma vai liberando o
nódulo, soltando-o progressivamente do miométrio,
com o uso mínimo de corrente elétrica. A
coagulação de pequenos e médios vasos
é necessária, principalmente ao ser atingida
a base da lesão, isto pode ser feito com segurança
e de forma pontual, evitando-se assim lesão extensa
do miométrio normal.
Com o mioma totalmente solto ou ainda ligeiramente preso
ao útero, porém sem vascularização,
faz-se a segmentação deste em dois ou mais
fragmentos, através da corrente de corte com a
alça em "L ', agora sem perda sangüínea
ou risco de perfuração. A retirada dos fragmento
pode acontecer com pinça de Winter, Hallis, ou
assistida por histeroscopia com pinça de apreensão.
Esta técnica permite que se possa tratar cirurgicamente
mioma submucoso com componente intramural, com menor risco
de perfuração, lesão térmica
por contiguidade, menor destruição do miométrio
normal, menor tempo cirúrgico e diminuição
do risco de absorção rápida de líquido
( overload).
COMPLICAÇÕES
A laceração
de colo do útero e a perfuração uterina
são das complicações mais freqüentes
na cirurgias histeroscópicas.
As perfurações uterinas podem acontecer
no período da dilatação do colo do
útero, a passagem das velas de Hegar ou no uso
de corrente elétrica para secção
do mioma.
Quando a perfuração ocorre apenas por trauma,
sem uso de corrente, na maioria das vezes a observação
da paciente por 6 a 8 horas é suficiente, sem qualquer
intervenção cirúrgica.
Nas perfurações uterinas com uso de corrente
monopolar se faz necessária a investigação
da cavidade abdominal por laparoscopia ou por laparotomia,
com investigação de alça intestinal
e bexiga.
Como o mioma tem vasos calibrosos em sua superfície
e profundamente para nutri-lo, o sangramento nesta cirurgia
é de importância pela quantidade e duração,
inclusive durante a cirurgia, mantendo o campo operatório
sempre turvo com sangue. O ginecologista deve estar bem
treinado para realizar a miomectomia histeroscópica,
pois freqüentemente não há tempo para
pensar e nem visão satisfatória para operar.
Como os vasos são calibrosos a absorção
de líquido pode acontecer de forma muito rápida,
podendo acarretar overload e morte em poucos minutos.
A infecção é infreqüente nas
cirurgias histeroscópicas, tendo nas miomectomias
as maiores incidências. A antibioticoterapia profilática
esta indicada neste procedimento.
Algumas complicações tardia acontecem tais
como sinéquias e acretização placentária,
principalmente nas áreas de grandes ressecções.
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