SINÉQUIAS INTRA-UTERINAS
Autores:
Dr. Ricardo Bassil Lasmar
Dr. Paulo R. M. Barrozo
As sinéquias
intra-uterinas são encontradas mais freqüentemente
em abortos de repetição, nos casos de esterilidade
e alterações menstruais.
O tratamento das sinéquias aumenta em 50% a incidência
de gravidez e em 75 % a melhora das alterações menstruais.
O primeiro relatou de aderência intra-uterina foi de Fristch
em 1894. Em 1948, Asherman descreveu "amenorréia traumática",
como amenorréia secundária a sinéquias intra-uterinas,
seguida a curetagem uterina por abortamento incompleto ou missed abortion.
ETIOPATOGENIA
Infecções (endometrites)
raramente causam aderências, exceto nos casos de
endometrite tuberculosa. A maior causa de sinéquias
é a curetagem uterina.
Em 90 % dos casos ocorrem por trauma na curetagem ou manipulação
do endométrio no pós parto ou pós aborto. A retirada
da camada basal e exposição da muscular, produz adesão
com a coaptação das paredes uterinas.
As miomectomias de miomas submucosos, independente da via de acesso,
também são um fator causal de sinéquias.
PATOGENIA DA AMENORRÉIA
Muitos casos de sinéquias
estão associados a amenorréia. Isto é
bem compreendido nos casos de completa aderência
das paredes uterinas, com destruição de
endométrio. A hipomenorréia estaria relacionada
com a aderência parcial da cavidade e com o nível
de lesão residual atrófica do endométrio.
Ainda não se tem explicações para os casos de
amenorréia em que a sinéquia encontra-se apenas na região
ístmica, com o restante da cavidade normal.
Asherman, propôs ser a causa de amenorréia nestes casos,
mediada por neuromecanismos, onde haveria um mecanismo de reflexo
inibitório.
Parece que com a sinéquia
em região ístmica, a menstruação
permanece por 1 a 2 ciclos, depois cessa, o que se repete
quando se faz o gráfico de temperatura basal. Nas
histeroscopias onde a sinéquia ístmica é
recente, encontra-se sangue escuro no interior da cavidade.
Quando esta acontece após longo período
de amenorréia, a cavidade encontra-se vazia.
DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO
Nos casos de amenorréia,
alterações menstruais e/ou esterilidade
pós curetagem, há de ser sempre pesquisada
a presença de sinéquia.
A histerossalpingografia é o método de screening mais
freqüente, sendo que a histeroscopia confirma o diagnóstico
e define o tratamento cirúrgico.
Com a histeroscopia, algumas sinéquias cervicais e de orifício
interno não são vistas, pois são liberadas junto
a introdução do histeroscópio.
A vantagem da histerossalpingografia sob a histeroscopia é
incluir a visão das tubas, enquanto a vantagem da histeroscopia
sob a histerossalpingografia é a possibilidade de tratamento
concomitante ao diagnóstico.
Na pesquisa de esterilidade a associação dos dois métodos
soma a vantagem de um às vantagens do outro.
Existem várias classificações para aderências
baseadas em histologia, histerografia, sintomatologia e histeroscopia.
Hamou define três tipos de aderências: mucosa, muscular
e fibrosa.
A aderência mucosa tem a mesma aparência do endométrio
adjacente, é muito frágil, liberada facilmente com a
camisa do histeroscópio, com sangramento no momento da lise.
A aderência muscular é recoberta por endométrio
pálido e atrófico, com numerosos orifícios glandulares.
Sua dissecção completa é mais difícil,
quando acontece, se faz de forma irregular, identificando-se freqüentemente
estruturas musculares.
As aderências fibrosas são translúcidas, não
cobertas por endométrio, pobres de vascularização.
Raramente sangram ou causam dor quando separadas, retraindo a superfície
após a lise. Donnez considera importante a classificação
avaliando a localização das sinéquias:
Classificação de acordo
com a localização e aspecto da aderência:
I- Sinéquia central
a) aderências finas, endometrial
b) fibromusculares ou fibrosas.
II- Sinéquia marginal ( sempre
fibromuscular ou fibrosa)
a) pilares marginais compactos.
b) obliteração de um óstio.
III- Cavidade uterina ausente na
HSG.
a) oclusão do orifício interno, com restante da cavidade
normal.
b) coaptação extensa da cavidade. ( síndrome
de Asherman)
Valle e Sciarra classificam as aderências
uterinas em leve, moderada e severa, baseados no grau
de envolvimento intra-uterino na HSG e a extensão
e tipo de sinéquia identificada na H/S:
· Leve é composta por aderência finas do tecido
basal endometrial, ocupando parcial ou totalmente a cavidade.
· Média é fibromuscular, densa, coberta por endométrio.
· Severa apresenta apenas tecido fibroso.
A AFS propôs uma classificação que se baseia nos
achados da HSG, H/S e correlacionados com o padrão menstrual
da paciente.
TRATAMENTO
O tratamento atual é baseado
na histeroscopia, que sob visão direta permite
liberar todo o processo aderencial.
Nas sinéquias mucosas, a lise é possível com
a camisa do histeroscópio, com movimentos de distensão
da aderência até a sua rotura.
As sinéquias fibromusculares e fibrosas necessitam de secção.
As mais finas podem ser retiradas com tesouras ou pinças, que
são introduzidas por canal operatório ou paralelamente
à camisa diagnóstica, com meio de distensão gasoso
ou líquido.
Nas aderências mais densas, o ressectoscópio com a alça
em "faca" se faz necessário para lise.
O uso pós operatório do DIU não é aceito
por todos, sendo utilizado no nosso serviço quando é
extensa a área de aderência, principalmente nas sinéquias
centrais.
A lise de sinéquias por histeroscopia refaz em 80% das vezes
a normalidade do fluxo menstrual, com excelentes resultados para gravidez
nos graus Ia, Ib, IIa e IIIa.
Nos estágios IIb e IIIb, as aderências tendem a retornar
de forma mais severa em 60% dos casos, não havendo gravidez
nestes.
Nas pacientes tratadas com sinéquias moderadas ou severas,
que conseguem gestar, o risco de acretização placentária
aumenta significativamente.
Deve-se ter a preocupação em prevenir as sinéquias
em todos os procedimentos uterinos, evitando-se traumas no endométrio,
com manipulação suave da cavidade.
SEPTOPLASTIA
Autor: Dr. Paulo R. M. Barrozo
Anormalidades congênitas
do útero são relativamente comuns na população.
Embora muitas espécies animais tenham úteros
septados ou bicornos, sem nenhum problema, no homem isso
resulta no aumento da incidência de infertilidade,
abortamentos e partos prematuros.
Seu diagnóstico normalmente é feito por histerossalpingografia,
ultra-sonografia ou curetagem uterina, geralmente no decurso de investigações
para infertilidade ou perdas gestacionais de repetição.
Antes do desenvolvimento das modernas técnicas de histeroscopia
cirúrgica, a correção desses defeitos era feita
por laparotomia, com potencial de levar a um alto índice de
morbidade e afastamento das atividades laborativas por um prolongado
período (4 a 6 semanas). Por isso, esta cirurgia era reservada
para quando as pacientes já haviam enfrentado um verdadeiro
calvário de perdas fetais ou sentido o trauma de uma morte
neonatal.
Com a histeroscopia cirúrgica, a correção da
anatomia de seu útero pode ser oferecida mesmo para aquelas
que ainda não gestaram, sem os agravos da técnica laparotômica.
PRÉ OPERATÓRIO:
Após uma boa anamnese e
exame ginecológico criterioso, consideramos importante
a realização de uma histeroscopia diagnóstica
para avaliação do defeito a ser corrigido
e planejamento do ato cirúrgico. A histeroscopia
diagnóstica prévia, também vai proporcionar
uma avaliação da presença ou não
de patologias concomitantes como: pólipos, miomas,
sinéquias e também vai dar importantes informações
sobre tamanho e formato da cavidade uterina a ser operada.
A avaliação laboratorial vai depender da história
e da clínica da paciente, mas no geral é suficiente
a realização de um ECG, hemograma completo, glicemia,
coagulograma e eletrólitos (que podem sofrer grandes alterações
em caso de absorção excessiva do meio de distensão).
Antes da cirurgia a paciente deve ser adequadamente informada sobre
que resultados esperar da cirurgia, complicações potenciais
e assinar um consentimento informado.
PREPARO PRÉ OPERATÓRIO:
O cirurgião deve ter uma
exata noção da natureza da deformidade que
vai ser operada. Existem muitas variações
como: útero arcuados, septados, unicornos, bicornos
e didelfos.
O formato do útero e de sua cavidade deve ser exaustivamente
estudado até existir uma certeza do que vai ser abordado. Esta
avaliação pode ser feita por ultra-sonografia, histerossalpingografia,
histeroscopia diagnóstica e eventualmente ressonância
nuclear magnética.
Certamente não vamos utilizar todos estes métodos em
todas as pacientes, mas o cirurgião não deve hesitar
em utilizar todos os métodos disponíveis, diante de
uma dúvida não resolvida sobre a anatomia do útero.
Independente de toda informação disponível no
pré operatório, uma laparoscopia obrigatoriamente deve
ser realizada imediatamente antes da septoplastia, a fim de se avaliar
a exata conformação externa do útero. Se existir
um vídeo ou fotos de alguma laparoscopia prévia, isto
pode ser o suficiente.
Uma ampola de goserelina 3,6, deve ser utilizada de 4 a 6 semanas
antes da cirurgia sempre que for possível. Com isso, obtemos
um adelgaçamento do endométrio, que nos permite melhor
visualização da cavidade, do septo e também uma
melhor visualização dos óstios tubáreos.
Como estas cirurgias visam a melhora da performance reprodutiva, especial
atenção deve ser dada aos cuidados para não provocar
inadvertidamente uma lesão nos óstios tubáreos.
O PROCEDIMENTO:
A ressecção do septo
pode ser feita com tesoura, laser, ressectoscópio
monopolar ou bipolar. Utilizamos o ressectoscópio
monopolar com alça em "L", devido a sua
versatilidade, corte preciso e mais exangue que a tesoura
e muito maior disponibilidade que o laser. Atualmente
está sendo disponibilizado em nosso meio, um novo
instrumento destinado à ressecção
bipolar em vídeo histeroscopia cirúrgica.
Pelas nossas observações preliminares, acreditamos que
devido ao menor dano tecidual, este equipamento deverá ocupar
o lugar do ressectoscópio monopolar na septoplastia.
Iniciamos com uma detalhada inspeção histeroscópica
onde tentamos precisar a extensão e disposição
do septo e estudar seu posicionamento em relação à
área que vai ser abordada. Mentalmente devemos tentar traçar
o trajeto que vamos percorrer durante a cirurgia. O septo deve ser
dividido o mais próximo possível de seu meio, eqüidistante
das paredes uterinas anteriores e posteriores, onde o sangramento,
o risco de perfuração e falso trajeto é menor.
Durante o procedimento, devemos freqüentemente recuar a ótica,
fim de se obter uma visão panorâmica do septo e da cavidade
uterina, com isso pode ser corrigido o trajeto da incisão,
quando esta começa a se afastar da linha média.
Ao contrário dos outros procedimentos de cirurgia histeroscópica,
na ressecção do septo muitas vezes caminhamos com a
alça da ótica para o fundo uterino. Por isso, devemos
utilizar a carga elétrica em pequenas "rajadas",
pisando e soltando rápida e repetidamente o pedal do gerador
eletrocirúrgico. Para isto, devemos regular o gerador eletrocirúrgico
para corrente de corte ou "blend" (com o uso da corrente
Blend 1, obtemos uma melhora da hemostasia) e potência entre
100 e 125 Watts.
CUIDADOS PÓS OPERATÓRIOS
As pacientes devem ser avisadas
que podem ter um fluxo vaginal sanguinolento por até
6 semanas. Utilizamos antibiótico (quinolona) por
3 dias, anti inflamatórios não esteróides
por 6 dias e analgésicos-antiespamódicos
(hioscina+acetaminofen) para alívio de algumas
cólicas uterinas que podem surgir.
Não fazemos colocação de DIU ou de nenhum outro
método mecânico de afastamento das paredes do útero,
embora alguns autores o façam.
Se houve uso de análogo do GnRH, prescrevemos 25 dias de estrógenos
conjugados 1,25 mg e adicionamos 10 mg de medoxiprogesterona do dia
21 ao dia 25.
Adicionalmente, as pacientes são instruídas a reportar
qualquer sangramento vaginal de maior intensidade, dor, febre ou corrimento
vaginal com odor forte.
Por volta de 8 semanas após o procedimento, fazemos uma histeroscopia
diagnóstica para avaliação da cavidade. Eventualmente
surpreendemos pequenas sinéquias velamentosas, que são
facilmente desfeitas com a própria ótica. Após
o exame, liberamos a paciente para tentar gestar.
RESULTADOS
Sucesso na remoção
do septo uterino é a regra após uma metroplastia
histeroscópica, em um muito pequeno percentual
de casos, será necessário repetir o procedimento
devido a septo residual.
No caso da septoplastia feita devido
a abortamentos tardios ou perdas fetais de segundo trimestre,
praticamente todos os estudos reportam uma taxa de sucesso
muito grande. Já nos casos de infertilidade e de
abortamento precoces, os dados são de mais difícil
interpretação, embora em ambos casos existam
trabalhos reportando aumento das taxas de bebê em
casa.
Em função da facilidade com que o procedimento é
realizado, de sua baixa morbidade e bons resultados na correção
da anatomia uterina, recomendamos que a septoplastia seja realizada
em todas as pacientes portadoras dessa patologia que pretendam gestar.
Com esta medida, podemos fazer a profilaxia de boa parte das perdas
fetais, que ocorrem com freqüência nas pacientes com deformidade
da cavidade uterina.

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