| Video-laparoscopia
- Uma Nova Ideia?
Dr. Flávio Malcher
Atualmente ocorre uma verdadeira
revolução nas áreas cirúrgicas da medicina com o advento da
cirurgia vídeo-endoscópica, a qual desenvolveu-se e afirmou-se
definitivamente no arsenal diagnóstico e terapêutico do médico
moderno. O princípio desta técnica se baseia em olhar dentro
de uma cavidade do organismo e nela poder realizar procedimentos
(daí os nomes laparoscopia, histeroscopia, artroscopia, endoscopia,...).
Para que se possa realizar um
procedimento endoscópico, necessita-se de uma aparelhagem
adequada, que se constitui basicamente de: monitor de vídeo,
microcâmera, fonte de luz e um insuflador de ar ou líquido,
além do instrumental adequado. Hoje em dia, a tecnologia poe
a disposição uma variedade de equipamentos de última geração
para a realização destas cirurgias, porém nem sempre foi assim.
O primeiro médico a observar
uma cavidade do organismo por meio de instrumentos foi um
árabe chamado Abulkasim (936-1013), o qual examinou a cérvix
por meio de luz refletida por espelhos. A endoscopia como
conhecemos só pode ser realizada quando se conseguiu resolver
o problema das lesões térmicas que aconteciam quando se utilizava
luz artificial para iluminar uma cavidade. Assim o primeiro
procedimento endoscópico realizado foi, no século XIX, uma
cistoscopia, pois como a bexiga é um órgão repleto de líquido,
o calor não chegava a lesar as paredes do órgão. Em 1874,
Stein fotografou pela primeira vez imagens conseguidas por
cistoscópios.
A visualização da cavidade peritoneal
foi descrita em 1901 por Kelling, que utilizou um cistoscópio
para inspecionar a cavidade peritoneal de um cão, procedimento
que ele chamou de "celioscopia". Em 1910, Jacobaeus
realizou pela primeira vez procedimento parecido em humanos,
com intuito meramente diagnóstico. Estes pioneiros inseriam
seu cistoscópios e tocáteres diretamente na cavidade peritoneal,
mas em aproximadamente 1940, Goetz e posteriormente Veress
desenvolveram um instrumento tipo agulha que permitia a instalação
de um pneumoperitôneo antes da introdução da aparelhagem,
o que proporcionava uma maior segurança e operabilidade ao
método.
Com a maior difusão do método,
começaram a surgir os relatos de complicações, maiores e menores,
como lesões de vísceras e grandes vasos. Então Decker em 1946
desenvolveu uma técnica aonde ele inseria a ótica pelo fundo
de saco posterior da vagina e conseguia visualizar a cavidade
com uma incidência de complicações menor (chamou-se de culdoscopia).
Ao mesmo tempo, o francês Raoul Palmer destacou a importância
da monitorização das pressões intra-cavitárias durante os
procedimentos. Este ponto só foi resolvido em 1964 quando
Kurt Semm desenvolveu na Alemanha um aparelho que controlava
a pressão intra-abdominal e o fluxo de gás. Nascia então o
primeiro insuflador de gás para a laparoscopia.
Outro grande avanço para o método
se deu em 1966, quando Hopkins desenvolveu na Inglaterra a
primeira ótica com lentes que permitia a iluminação plena
da cavidade e captação perfeita da imagem, modelo basicamente
utilizado até hoje nos laparoscópicos. Na mesma década de
60, desenvolveu-se as fontes de luz frias, que permitiam uma
maior segurança, eliminando o risco de lesões térmicas a estrututas
intra-abdominais de uma vez por todas.
Até então a laparoscopia só tinha
sido utilizada para diagnóstico. Semm foi o pioneiro na realização
de procedimentos operatórios por laparoscopia, relizando a
pelviscopia operatória, onde realizava esterilização com cauterização
tubária. O mesmo professor Semm desenvolveu as óticas com
lentes anguladas, as quais permitem uma visualização melhor
da cavidade abdominal.
A equipe cirúrgica do prof. Semm,
na universidade de Kiel, desenvolveu então inúmeras técnicas
e instrumentos operatórios para laparoscopia, como os eletrocautérios
em gancho ("hook"), que facilitam a percepção de
profundidade; o morcelador, aparelho que permite a retirada
de grandes peças de tecido da cavidade; os redutores, instrumentos
que permitem o uso de pinças sem o vazamento de gás da cavidade;
os primeiros sistemas de irrigação e lavagem da cavidade e
as primeiras "caixas-pretas" para o treinamento
nas técnicas laparoscópicas. Com tudo isto, Semm popularizou
inúmeros procedimentos, principalmente em ginecologia. Atualmente
mais de 80% de todos os procedimentos ginecológicos são feitos
por laparoscopia nos grandes centros médicos europeus.
Porém, os procedimentos laparoscópicos
continuavam com visão restrita ao cirurgião ou no máximo a
um auxiliar por meio de óticas caronas, o que dificultava
o auxílio ao cirurgião, tornava a técnica tediosa para a equipe
e dificultava a difusão mais rápida e aceitação do método.
Este empecilho foi solucionado em 1986 com o desenvolvimento
da microcâmera com um chip de computador acoplado (mesmo sistema
utilizado nas microcâmeras utilizadas na fórmula 1) ligada
a um monitor de vídeo. Era o início da era da cirurgia vídeo-laparoscópica.
Este pequeno passo levou a um grande avanço da técnica pois
permitiu o auxílio de vários cirugiões no campo operatório,
facilitou muito o treinamento de novos cirurgiões e permitiu
a documentação dos procedimentos em fitas de vídeo. O rápido
desenvolvimento na área de vídeo, permitiu uma evolução surpreendente
nas câmeras e monitores disponíveis, amplificando a imagem
em cerca de 16 a 20 vezes e levando a uma clareza e definição
das estruturas, permitindo dissecções muito mais delicadas
dos tecidos.
A introdição da cirurgia vídeo-laparoscópica
na cirurgia geral se deu com o diagnóstico de apendicite aguda
em mulheres com queixa de dor pélvica, submetidas a vídeo-laparoscopia
diagnóstica. Com este exame a taxa de apendicectomias brancas
em mulheres decaiu em 70%. Porém, o primeiro procedimento
realizado por cirurgiões gerais foi a biópsia hepática sob
visão direta. Em 1985 Filipi, Mall e Roosma realizaram a primeira
colecistectomia vídeo-laparocópica em animais e em 1988 Dubois
na França e McKernan e Saye no Estados Unidos, realizaram
as primeiras colecistectomias vídeo-laparoscópicas em humanos.
Atualmente mais de 95% das colecistectomias são realizadas
por vídeo cirurgia nos grandes centros médicos.
A primeira apendicectomia por
vídeo foi realizada por Semm em 1983, sendo fortemente indicada
atualmente nos casos de dúvida diagnóstica ou nos casos tardios
com peritonite difusa. As herniorrafias inguinais vídeo-laparoscópicas
iniciaram-se em 1990 com Ger, e até hoje em dia suas indicações
são discutidas. A cirugias de esôfago anti-refluxo são praticamente
só realizadas por vídeo-laparoscopia tendo o cuidado de se
respeitar a indicações cirúrgicas.
Enfim, a técnica de difundiu
rapidamente no final da década de 80, chegando ao Brasil em
1991, tornando-se então uma realidade. Hoje em dia infinitos
procedimentos são realizados por vídeo-laparoscopia, uma antiga
idéia que resurgiu definitivamente nos meios cirúrgicos.

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