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CONTROVÉRSIAS ENTRE O VÍDEO-HISTEROSCOPISTA E O ANATOMOPATOLOGISTA


DR. LEON CARDEMAN
* Aula ministrada no II Curso Básico de Vídeo-Histeroscopia

A primeira queixa do vídeo-histeroscopista com o patologista é de que o que ele vê não corresponde com o laudo. Ora, a premissa tem mão dupla.

Não pode-se deixar de preencher os dados clínicos, idade da paciente, D.U.M., um breve HDA para que se possa avaliar globalmente cada caso.

Então a primeira atitude do vídeo-histeroscopista é fornecer as informações possíveis e cobrar diretamente do colega todas as dúvidas. Para isso é necessário um formulário de pedido específico para a especialidade, conforme o modelo anexo, e que cubro quase todas as indagações e que dê o máximo de subsídios.

Pergunta crônica: Como foi colhido o material? Com aparelhos adequados? O tecido esta bem fixado no formol?

Se o material é escasso trate com que o colega siga com o material na parafina, individualmente. Siga "na mão".

A inclusão na parafina tem que ser cuidadosa e diferenciada. Isto só se consegue cobrando a ação personalizada do patologista.

Caso o laudo não esteja conferindo com o da vídeo-histeroscopia, há necessidade obrigatória de recortar mais o bloco de parafina e realizar novas lâminas. É preciso que o anatomopatologista examine bem o vidro com a peça e observe se nenhum pedaço do tecido ficou colado na parede. Não deixe peças em soro fisiológico sob hipótese nenhuma.

Há ocasiões que o tecido endometrial apresenta-se secretor e em um foco existe hiperplasia focal heteróloga. È absolutamente necessário descartar a iatrogenia secundária.

É caso que o vídeo-histeroscopista tem que saber do ginecologista se houve medicação prévia ou se esta em uso de produtos que alterem a mucosa endometrial.

No caso dos problemas dos pólipos endometriais em que há calcificação e só foi retirada a mucosa superficial a informação de quem colheu é definitiva na formação do laudo.

Suspeitas clínicas devem ser integralmente colocadas no pedido: Hiperplasia atípica ou blastoma? Adenomiose? Mioma submucoso? Endometrite? Etc.

Biópsias de regiões diferentes devem ser enviadas em vidros separados.

O liquido existente na cavidade deve ser colhido e enviado para exame citológico. Ele terá que ser fixado em álcool a 96%. Far-se-á "cell-block" em parafina.

Nas pacientes com amenorréia de causa uterina, tem de ser bem cientificada ao patologista, pois é obvio que existem também os desvios funcionais na pós-menopausa.

Detalhe: não se olvidar de que são colhidos materiais endocervicais: Pólipos, sinéquias, nódulos e nas menopausadas há as vezes material cervical metaplasiado.

Com este breve roteiro, torna-se possível otimizar o grau de confiabilidade da vídeo-histeroscopia, tornando-a um método simples, rápido e eficaz para diagnósticos.

ENDOMETRIOSE
Endometriose uterina é uma condição caracterizada por invasão benigna do endométrio para o miométrio, associada a um crescimento acentuado da musculatura (Novak). A endometriose e o leiomioma coexistem freqüentemente e podem confundir o diagnóstico, principalmente na mucosa. O diagnóstico de endometriose de localização mucosa deve ser enfatizado somente nos casos em que sob ultra-sonografia exclui a existência de leiomiomas. O diagnóstico diferencial entre as duas entidades, às vezes é totalmente impossível.

MACROSCOPIA
A grande característica macroscópica da endometriose no corpo uterino, é o espessamento acentuado da musculatura e fibrose intersticial, além, é obvio da presença de focos endometrióticos. A consistência uterina é extremamente acentuada. As aderências peritoniais são marcantes.
Ao córte, no corpo, notamos superfície espiralada, trabeculada, sem tendência a formar nódulos circunscritos. Aspecto freqüente é a hemorragia focal, com áreas brancas ou achocolatadas. Podemos notar em meio à musculatura, ocasionalmente, zonas esponjosas róseas, de endométrio. A camada endometrial pode se apresentar normal, ou espessada, às vezes, polipoide, com hemorragias superficiais e em alguns casos com aspecto hiperplásico

MICROSCOPIA
O diagnóstico microscópico da Adenomiose é baseado no achado de ilhas de endométrio, profundamente localizadas na musculatura. Normalmente a mucosa uterina se espalha através da muscularis em um ou outro ponto sem camada sub-mucosa entre elas, tanto que, extremidades de glândulas e o estroma próximo mergulham nos interstícios musculares em pequenas distâncias.

Na Adenomiose, entretanto, há uma invasão do dito tecido normal do endométrio além dos limites descritos, em alguns casos, seguindo os caminhos dos linfáticos, e até a serosa.

As ilhas endometrióticas apresentam ocasionalmente, na superfície, congestão e hemorragia com células glandulares típicas e estroma similar. Entretanto há grandes variações, dependentes da fase do ciclo. As estruturas glandulares se assemelham muitas vezes à variedades imaturas (principalmente nos casos de resposta à estímulo estrogênico ).

Fato que chama muito a atenção é que quando a superfície do endométrio está na fase secretória pré-menstrual, o endométrio aberrante não apresenta o menor sinal de atividade secretória, mas somente e puramente uma figura de tipo proliferativa. Ocasionalmente notamos uma hiperplasia do tipo "queijo suíço", freqüentemente, quando a superfície endometrial apresenta hiperplasia, a mesma figura é notada nas ilhas que invadem o miométrio.

Em outras palavras, podemos notar as mesmas variações de resposta funcional que são notadas nos pólipos endometriais. Cremos que as extensões penetrantes do tecido endometrial vistas na Adenomiose são similares à pólipos invertidos, e como estes, compostos tanto por tecido maduro e funcionante, ou por tecido que sob o ponto de vista de resposta menstrual pleno é imaturo e não funcionante. Estas variações explicam por que em alguns casos o sangue menstrual é achado nas ilhas anormais e em outros é ausente. (Novak) No caso do tecido maduro e funcionante as ilhas endometriais constituem minicavidades uterinas nas quais as mesmas alterações cíclicas e o mesmo aspecto hemorrágico é o do encontrado na cavidade real.

Não somente as alterações cíclicas da menstruação são observadas, mas também reações deciduais da gravidez são notadas.

A Adenomiose ocorre também no corno uterino. Às vezes de forma diferente, lembrando estruturas organóides remanescentes da original Malpighiana com estruturas renais imaturas e ausência de estroma, por esta razão, alguns crêem que são originárias no cruzamento de dutos Mullerianos e Wolffianos; a endometriose poderia ser originada em coristomas ou estruturas Wolffianas incluídas na região do corno. Este ponto de vista não é genericamente aceito.

O que não é endometrite ?
A simples presença de linfócitos no estroma citógeno formando folículos é comum e faz parte da evolução do ciclo na fase proliferativa.
Durante o período ovulatório ( 2 à 3 dias ), é possível notar exsudato inflamatório com leucócitos e linfócitos.

Esta observação é consistente com a natureza estéril do endométrio normal.

Na fase final do ciclo, notamos reação inflamatória difusa pela presença de degeneração do estroma e necrose natural. Nesta ocasião observamos leucócitos polimorfonucleares com fagocitose, linfócitos, plasmócitos e histiócitos. Não é recomendável fazer a biopsia nesta época para o diagnóstico de endometrite crônica.

A biopsia é recomendável no período menstrual inicial, quando queremos analisar se houve ovulação, necrose focal do endométrio associada à anovulação ou pelo uso de hormônios esteróides.

ENDOMETRITES
Agudas ( inespecífica ): Notamos a presença em tecido endometrial de leucócitos polimorfonucleares segmentados em grande quantidade nas 24-48 horas da instalação do processo, além de necrose e quase sempre com germes de associação ( Estrepto, Estafilo, Neisseria e Clostridium ). Isso é válido para todos os dias do ciclo.

Crônicas: Podem ser ascendentes ( vindas do colo ) e descendentes ( trompa e ovário ). Não tocaremos no assunto das endometrites específicas.
Quando há uma endometrite crônica o domínio é de linfócitos e plasmócitos, de um modo geral, difuso e o que ajuda o diagnóstico é o aspecto da presença de células fusiformes do estroma citógeno, principalmente em torno das estruturas glandulares. A presença por si só de debris ( restos celulares ) nas luzes glandulares não é selo patognomônico de infecção. É necessário o comprometimento do estroma citógeno. A Chlamidia trachomatis tem o mau hábito de determinar comumente este tipo de infecção. Ocasionalmente há infecções deste tipo por ( Estrepto, Estafilo e mycoplasma).

Quando aparecerem histiócitos e células de Langhans já podemos também pensar em tuberculose.

Viroses também podem dar endometrites e já é matéria de outro artigo.

HIPERPLASIA FOCAL
De um modo geral quando presentes, caracterizam resposta local irregular à ação estrogênio-progesterona, que é uma alteração disfuncional hormonal focal. Quando notarmos espessamento do tecido citógeno e multiplicação de células glandulares ( 2 ou mais carreiras de células ) localizado, denominamos como Hiperplasia focal. O que vale na biopsia é o quadro predominante, ou seja , se a maioria do tecido é proliferativo o laudo sairá como tal e se for secretório valerá este. Isto é mandatório em histopatologia.

DIVAGAÇÃO
A Anatomia Patológica é o termometro de uma clínica ou hospital. A qualidade de um serviço é diretamente proporcional à qualidade do seu anatomopatologista.

Preencher bem uma requisição anatomo-patológica só é apanágio dos bons serviços. Temos dito.

Dra. Sheila Rochlin
Dr. Leon Cardeman


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