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DESENVOLVIMENTO E TÉCNICAS DO MÉTODO VÍDEO-HISTEROSCÓPICO

RESUMO HISTÓRICO

DR. AFFONSO LOYOLA
*Aula ministrada no II Curso Básico de Vídeo-Histeroscopia

Quem se der ao trabalho de estudar atentamente as várias fases do progresso alcançado por todas as civilizações, ficará assombrado em constatar que as diretrizes seguidas pela maioria das pesquisas que resultaram em desenvolvimento tecnológico tiveram suas bases na simples curiosidade.

Fator inerente à essência humana, esse estímulo intuitivo ao prazer de descobrir coisas foi, sem dúvida alguma, denominador comum na maioria das descobertas científicas. Considerando-se que, ao contrário dos animais, 80% da curiosidade humana apoiam-se na observação visual, não é mera coincidência verificar que os primeiros instrumentos científicos desenvolvidos tiveram o objetivo de aumentar o poder da visão. Inventou-se a lupa, os óculos, o telescópio e o microscópio para aumentar objetos menores, trazer para perto o que se encontrava distante e tornar visível o que, de tão pequeno, não se podia enxergar.

Assim, quando os médicos ousaram visualizar todos o interior de um corpo vivo sem dissecá-lo até a morte, essa curiosidade irresistível fez nascer a endoscopia.

1- DESENVOLVIMENTO DOS SISTEMAS ÓPTICOS E DE ILUMINAÇÃO

A endoscopia deu seus primeiros passos através de Philipp Bozzini, um jovem médico de Frankfurt, inconformado com a impossibilidade de se contemplar as cavidades internas e "espaços intermediários" do corpo animal vivo, situação imutável durante os mais de 2000 anos da ciência médica. Com a determinação de vencer esta barreira, Bozzini idealizou o primeiro instrumento clinicamente utilizável para visualização do interior do corpo humano, que foi registrado em publicação de 1806 sob nome de "condutor de luz". Seu aparelho consistia em tubo metálico adaptado à janela de uma base que continha em seu interior oco uma vela de iluminação situada alguns centímetros à frente de um espelho côncavo. Este espelho refletia a luz concentrada até a extremidade aberta do tubo, iluminando o espaço que esta extremidade penetrava. Por uma abertura ou fresta localizada ao lado do espelho o observador recebia as imagens iluminadas.
O aparelho de Bozzini não obteve o sucesso esperado, em parte porque foi considerado muito complicado pelos médicos da época e de outra, porque não houve oportunidade de aperfeiçoá-lo, uma vez que Bozzini veio a falecer de tifo logo após seus primeiros ensaios clínicos. Com isso, as tentativas de inspeção interna caíram na esquecimento durante quase 50 anos.

Como Técnica especializada, a histeroscopia surgiu nos últimos decênios do século passado através do médicos italiano Diomede Pantaleoni que, em 1869, publicou no jornal Londrino The Medical Press um trabalho intitulado o Diagnóstico da Polipose Endometrial, conseguido em uma paciente de 60 anos de idade que apresentava metrorragia sem causa definida. Isso foi possível com a adaptação de um aparelho já denominado "Endoscópio", idealizado em 1853 pelo francês Desormeaux, com objetivo de inspeção uretral. Consistia num tubo oco de 12 mm de diâmentro por onde percorria a luz produzida numa espécie de pequeno lampião cujo pavio era alimentador por um mistura de álcool e terebentina. A luz assim produzida era refletida por um espelho côncavo até a cavidade ou porção do trajeto examinado. O espelho possuía um pequeno furo central de modo a permitir ao examinador a visualização das imagens existentes no final do tubo.

Em 1879, Maximilien Nitze com a ajuda de Leiter, um cientista óptico de Viena, conseguiu introduzir pequenas lentes de aproximação no interior dos endoscópios de modo que as diminutas imagens que antes situavam-se no final dos tubos, tornavam-se, agora, ampliadas e mais próximas do olho observador. Com o Endoscópia de Nitze, iniciava-se a era da endoscopia moderna.

Logo após a invenção da lâmpada elétrica, em 1879, pequenas lâmpadas foram adaptadas na extremidade dos endoscópios, o que fez cessar os inconvenientes do calor que a luz incandescente produzia por estar próxima da face do observador. As imagens endoscópicas passaram a ser mais claras e nítidas favorecendo diagnósticos precisos pela observação direta de um campo real.

A microcolposcopia surgiu por caminhos paralelos à endoscopia, quando, em 1948, Antoine e Gruenberger, da França, construíram um aparelho com a intenção de superar os benefícios conseguidos com a colposcopia, desenvolvida pelo professor Hinselmann na Alemanha. Entretanto, seu método não obteve continuidade prática pela insuficiência de iluminação e difícil focalização em decorrência do campo visual convexo como é a superfície do colo uterino.

Em 1952, Vulmiere, Gladú e Fourestier conseguiram a transmissão da luz produzida em fonte geradora distante do endoscópio, por intermédio de um bastão de quartzo. Nasceu aí o conceito de "luz fria" já que não mais ocorreriam queimaduras de tecido algum pelo contato inadvertido da lâmpada aquecida com qualquer órgão.

Em 1960, o inglês Hopkins inventou o sistema de lentes cilíndricas em forma de bastão que substituíram as delgadas e frágeis lentes utilizadas por Nitze. Este sistema possibilitou imagens mais claras e nítidas, complementadas por adicional alargamento do campo visual. Isto permitiu considerável redução no calibre dos instrumentos ópticos de endoscopia, possibilitando sua utilização em espaços restritos como articulações, ureteres, canal cervical etc.

Em 1980, Jacques Hamou de Paris desenvolveu o microcolpo-histeroscópio que, além de histeroscopia panorâmica, permite exame citológico in vivo dos epitélios do colo, canal cervical e endométrio com até 150 aumentos em técnicas de contato com foco estável.

2 - DESENVOLVIMENTO DOS MÉTODOS DE DISTENSÃO DA CAVIDADE UTERINA

A histeroscopia, pela técnica divulgada por Pantaleoni, em 1869, não conseguiu muitos seguidores, pela dificuldade de se examinar a cavidade uterina virtual, fechada pelo contato íntimo de suas paredes. Faltava um agente ou mecanismo distensor que pudesse propiciar o espaço real à observação panorâmica. Surgiram distenções com ar atmosférico, gás carbônico e líquidos diversos que, insuflados de maneira descontrolada, provocaram muitos acidentes graves que em alguns casos foram fatais.

Em 1950, Norment e Silander dilatavam a cavidade uterina com balão de borracha transparente, inflado com água pura ou ar atmosférico, que envolvia a extremidade invasiva do histeroscópio, com o objetivo de impedir a passagem de ar ou líquido para a corrente sanguínea ou para a cavidade peritoneal através das tubas. O método foi abandonado porque as imagens eram pouco nítidas e deformadas pela pressão do balão sobre o endométrio.
Mencken, em 1968, preconizou a utilização de líquidos de alta densidade ou de alto peso molecular como meio distensor mais adequado, por não serem nissíveis com o sangue.
Em 1970, o Professor Lindemann, de Hamburgo, construiu um aparelho insuflador de gás carbônico para uso em histeroscopia, que dispunha de controles mecânicos automáticos. Estes controles serviam para limitar a velocidade de insuflação do CO² e nivelar a pressão intra-uterina em níveis de total segurança, prevenindo acidentes e efeitos colaterais. Foi a partir dessa incomparável contribuição que a histeroscopia conquistou lugar de destaque dentre os métodos mais eficientes à investigação clínica de rotina em Ginecologia.

3 - HISTEROSCOPIA NO BRASIL

Realizamos nossa primeira histeroscopia em 1979, no Hospital Santa Rita, da Fundação das Pioneiras Sociais, em Vila Isabel, Rio de Janeiro, estimulados e orientados pelo então Professor Catedrático de Ginecologia da Universidade de Coimbra em Portugal, Professor Ibérico Nogueira, que, àquela época, residia no Brasil.

O equipamento de histeroscopia encomendado por ele a Richard Wolf, além de ópticas, camisas e instrumental flexível, possuía um aparelho insuflador com interruptor de pedal que utilizava pequenas garrafas descartáveis de "club soda" como fonte de gás carbônico. Como o aparelho não se fazia acompanhar de manual de instruções, por comodismo, preferimos entregar meio líquido de alto peso molecular, o Dextran 70.

Todas as nossas histeroscopias eram realizadas em Centro Cirúrgico, com anestesia e dilatação do colo uterino para uso de camisa operatória, pois biopsiávamos quase tudo, uma vez que as imagens não eram tão nítidas e tampouco iluminadas. Não havia, ainda, microcâmeras eficientes para monitorização em TV, e o exame direto através da ocular, além de restringir o campo visual, causava grande desconforto postural em exames mais demorados. Assim, gradativamente, fomos deixando a histeroscopia de lado até que fossemos novamente atraídos pelas notícias do renascer do método em Hamburgo e Paris no início dos anos 80, ocasião em que os fabricantes de endoscópio propagavam suas ópticas de calibre reduzido, aparelhos insufladores digitais e câmeras de TV sensíveis às novas fontes de iluminação que já se encontravam disponíveis no mercado.

Nessa época, o interesse brasileiro pela histeroscopia moderna verificou-se mais ou menos simultaneamente em serviços distintos localizados em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Natal onde jovens ginecologistas, entusiasmados com as possibilidades promissoras dessa técnica, deram os primeiros passos que resultaram na consagração dessa notável aquisição da Ginecologia contemporânea.

Jacques Hamou, de Paris, Ramón Labastida Nicolau, de Barcelona, e Lucca Mencaglia, de Perugia, proferiram vários cursos teórico-práticos intensivos em diferentes capitais brasileiras para divulgar, despertar interesse e iniciar o ensino da histeroscopia.

Entretanto, o mérito pelo aprimoramento técnico, decorrente de uma casuística ímpar no Brasil, e divulgação nacional através de cursos e congressos, foi e continua sendo patrimônio do Instituto de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nos primeiros anos de histeroscopia em nosso país, o então diretor do Instituto de Ginecologia, Prof. Alípio Augusto Camelo, teve visão privilegiada quanto à grandeza futura desse método, procurando adquirir o que de mais moderno havia no mundo em matéria de equipamento e instrumental para vídeo-histeroscopia propedêutica e terapêutica. Não satisfeito, fez preparar seus assistentes e estimulou a criação de cursos teórico-práticos continuados com o objetivo de capacitar especialistas de todas as partes do país.

Herdeiro de seu entusiasmo, o atual diretor, Prof. Paschoal Martini Simões, tem dado ao Setor de Endoscopia do Instituto de Ginecologia o melhor de sua atenção administrativa para mantê-lo na vanguarda da histeroscopia brasileira.

No Rio de Janeiro, o desenvolvimento da microcolposcopia tem reconhecida dívida à incansável disposição do Dr. Newton Vianna de Albuquerque em desvendar mistérios de Patologia Cervical. Quando chefiava o Serviço de Ginecologia do Instituto Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz, Dr. Newton estabeleceu protocolo que incluía a microcolposcopia em todos os casos de citologia positiva para neoplasia intra-epitelial cervical, com ou sem HPV, na vigência de colposcopia insatisfatória pela impossibilidade de visualização completa da junção escamocolunar. Esse estudo contava com a presença obrigatória de patologista para acompanhamento de milhares de microcolposcopias e incluía análise comparativa do exame microscópio in vivo da superfície epitelial cervical com os resultados de citologias e biópsias dirigidas que foram realizadas durante esses procedimentos. Foi com esse impulso e determinação que conseguimos alcançar considerável grau de conhecimento nesse promissor campo da Patologia Cervical.


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