| DIAGNÓSTICO VÍDEO-HISTEROSCÓPICO
DO CÂNCER DE ENDOMÉTRIO
DR.
LUIZ AUGUSTO HENRIQUE MELKI
*Aula
ministrada no II Curso Básico de Vídeo-Histeroscopia
O carcinoma do endométrio ( CE ) aparece como a sexta
causa mais freqüente de sangramento uterino, nos achados
vídeo-histeroscópicos. A incidência parece estar diminuindo
nos países desenvolvidos: contudo, estastistícas recentes
mostram que nos EUA são diagnosticadas 37 mil novos
casos por ano, ocorrendo 2.900 mortes ( Beck, 1989
).
Alguns fatores associados aumentem o risco de CE.
São eles:
Obesidade - O risco de CE está aumentado em três vezes
no grupo de pacientes com 9 a 22 quilos acima do peso
ideal. Para aquelas de peso corporal acima de 22 quilos
do peso ideal, o risco de CE aumenta para nove vezes.
Ciclos anovulatórios e ovários policisticos - O risco
esta aumentado em decorrência do constante estímulo
estrogênico sobre o endométrio, sem oposição progestacional.
Tumores ovarianos da teca-granulosa - Em 25% desse
casos encontra-se CE; possivelmente pela produção
aumentada de estrogênios.
Administração de estrogênios endógeno - Existe correlação
significativa entre ingestão de estrogênios e CE,
sobretudo quando a terapêutica com estrogênios não
se associam progetágenos que teriam ação protetora.
O sinal mais comum do CE é a irregularidade menstrual
ou o sangramento pós-menopausa. Há concordância entre
os autores de que o diagnóstico de carcinoma oculto
do endométrio, em pacientes assintomáticas, é excessivamente
baixo quando não se utiliza metodologia especial.
A média de idade para o CE é de 61 anos, contudo pode
ser encontrado em mulheres pertencentes a faixas etárias
mais baixas ou mais elevadas ( Quadro 1 ).
QUADRO 1
FREQÜÊNCIA DO CARCINOMA DO ENDOMÉTRIO
SEGUNDO A FAIXA ETÁRIA
| Faixa etária
(em anos) |
Freqüência
(%) |
| Abaixo de 30
31 a 40
41 a 50
51 a 60
61 a 70
71 a 80
Acima de 80 |
0,4
1,6
12,8
39,2
30,7
14,2
1,0 |
Segundo dados do Gompel, C & Silverberg, S. G-
Pathology in Gynecology and obstetrics.
2. ed., Philadelphia, Lippincott, 1977
Do ponto de vista de imagem vídeo-histeroscópica,
o CE apresenta-se como massa irregular, polilobular,
de coloração esbranquiçada, azulada ou rósea, largamente
implantada na parede uterina, em nítida demarcação
com o tecido sadio.
A descrição precedente é, segundo PARENTE ET AL. (
1987 ), a imagem mais freqüente do CE quando se utiliza
o CO2 como meio dilatador da cavidade uterina. Ainda
segundo os citados autores a forma polipoide é menos
comum. Neste aspecto, a imagem é semelhante a um pólipo,
embora raramente resulte de degeneração maligna.
O CE pode apresentar-se de forma difusa: extensos
infiltrados espessam e induram a mucosa. Nos casos
avançados a cavidade uterina é toda preenchida pelo
tumor que , a vídeo-histeroscopia, apresenta-se como
numerosas vegetações esbranquiçadas e friáveis ( forma
cerebriforme ) preenchendo a cavidade do útero. Existe
o CE na forma intra-epitelial cujo processo neoplásico
pode acometer parte ou inteiramente a cavidade uterina.
Neste tipo a imagem vídeo-histeroscópica traduz-se
por saliências mais ou menos regulares, esbranquiçadas
ou avermelhadas, ocupando a mucosa uterina ( imagem
em "paralelepípedo" ).
A aplicação do método vídeo-histeroscópico no diagnóstico
e na avaliação da extensão do CE não é isenta de preocupações.
Talvez a principal seja a possibilidade de veiculação
de células neoplásicas pelas trompas para cavidade
abdominal, disseminando a enfermidade.
A esse respeito, PARENTE ET AL. (1987) não encontraram
células neoplásicas no líquido intraperitoneal de
30 casos de CE em que a vídeo-histeroscopia foi realizada
antes da operação programada. Eles recomendam duas
precauções no exame: reduzir o fluxo de CO2 à taxa
mínima, isto é, 30 ml/minuto, e realizar o exame no
tempo mais curto possível.
SUGIMOTO ET AL. (1984), alguns dos maiores estudiosos
do assunto, não vêem perigo no método desde que o
procedimento seja feito cuidadosamente. Salientam
que à vídeo-histeroscopia o CE é caracterizado por
irregularidade, ulceração, elevação ou protusão da
mucosa uterina, além de sangramentos focais e vasos
sangüíneos ingurgitados. O diagnóstico portanto não
é difícil e as lesões suspeitas podem ser biopsiadas
sob visão direta.
Em 1992 avaliamos vídeo-histerocopicamente 82 pacientes
acima de 50 anos de idade com sangramento uterino
anormal. As características dos achados vídeo-histeroscópicos
no tange ao câncer uterino e, em especial, ao Adenocarcinoma
do endométrio (ACE), acham-se sumarizados nas tabelas
1 e 2.
Tabela 1. Diagnóstico histeroscópico do ACE
Histologia
Ace Não Ace
Ace (10) 9 1
Histeroscopia
Não Ace (72) 2 70
Sensibilidade 81,8 %
Especificidade 98,5 %
VPP 90 %
VPN 97,2 %
VPP = Valor preditivo positivo
VPN= Valor preditivo negativo
Em nossa estatística,
conforme mostra a tabela 1, o diagnóstico vídeo-histeroscópico
de possível ACE, feito em 10 casos; destes apenas
1 caso não confirmado histologicamente. Assim obtivemos
valor preditivo positivo de 90% e valor preditivo
negativo de 97,2%. Sensibilidade e especificidade
da vídeo-histeroscopia no rastreio do ACE, respectivamente,
de 81,8% e 98,5%.
A descrição do comprometimento da cavidade endometrial
e canal cervical nos 13 casos de câncer uterino observados
neste trabalho apresenta-se na tabela 2.
Tabela 2. Disseminação dos 13 tumores malignos do
útero com base na avaliação histeroscópica
| AVALIAÇÃO HISTEROSCÓPICA
TIPO DE TUMOR |
|
Nº |
| Comprometimento
difuso |
Adenocarcinoma |
4 |
| Região fundica |
Adenocarcinoma |
3 |
| Parede anterior
|
Adenocarcinoma |
3 |
| Região póstero-fúndica |
Adenocarcinoma |
1 |
| Parede lateral direita |
Adenocarcinoma |
2 |
| Terço superior do
canal cervical + |
|
|
| Terço inferior da
cavidade uterina |
Ca epidermóide |
|
| Terço superior de
canal cervical |
Ca epidermóide |
|
|
TOTAL |
|
11 |
Como pode se verificar pela tabela 2, 15,4% (2 casos)
dos 13 de câncer uterino eram de carcinoma epidermoide
do colo do útero, os restantes 84,6% correspondem
a ACE. Destes, nenhum invadia o canal cervical; um
dos casos de carcinoma epidermoide apresentou invasão
do terço inferior da cavidade uterina. Dos ACE, observou-se
mais freqüentemente o comprometimento difuso (36,4%
dos casos) da cavidade endometrial. O comprometimento
das regiões fúndicas e parede anterior desta cavidade
( observado em 27,3% e 18,2% respectivamente) ocupam
o segundo e terceiro lugar, respectivamente, no que
tange ao comprometimento intra-cavitário do ACE.

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