| ENDOMETRECTOMIA
HISTEROSCÓPICA
DR. PAULO ROBERTO MUSSEL BARROZO
*Aula ministrada no II Curso Básico de Vídeo-Histeroscopia
No passado, sangramentos uterinos anormais (SUA) que
não respondessem ao tratamento hormonal ou à dilatação
e curetagem, tinham como única alternativa de terapia
a histerectomia.
Com o advento da histeroscopia, foi possível uma melhor
avaliação e tratamento para este tipo de problema.
À medida que os equipamentos foram sendo aperfeiçoados,,
passou a ser possível a realização não só da histeroscopia
diagnóstica, como a histeroscopia operatória.
Aproximadamente 25% das histerectomias são realizadas
devido ao SUA. As primeiras endometrectomias histeroscópicas
foram indicadas naquelas pacientes que tinham alguma
contra-indicação ou não desejavam se submeter à histerectomia.
Com o aumento da experiência com o método e publicação
dos primeiros resultados de eficácia e análises de
custo x benefício em relação à histerectomia, começou
sua difusão e ampliação de suas indicações. Estas
vantagens incluem menor invasividade do procedimento,
menor tempo operatório e de internação, menor quantidade
de anestésicos, recuperação muito mais rápida da paciente
e menores custos tanto hospitalares, como globais.
INDICAÇÕES:
São candidatas à endometrectomia, mulheres com SUA
de causa benigna, que não tenham obtido resposta com
tratamento clínico, incluindo o hormonal, não possam
ou não desejem fazer uso dele.
INDICAÇÕES:
¨ Metrorragias que justifiquem uma histerectomia.
¨ Metrorragias resistentes a tratamento medicamentoso.
¨ Tamanho uterino menor que o equivalente a 12 semanas
de
gestação ou cavidade uterina até10 cm.
¨ Presença de mioma submucoso menor 5 cm de diâmetro.
¨ Ausência de patologia endometrial maligna.
¨ Prole completa.
¨ Ausência de patologias ginecológicas associadas
que indiquem cirurgia mais ampla (por ex., prolapso,
endometriose, neoplasia cervical intra epitelial,
etc.)
PRÉ OPERATÓRIO:
Após uma boa anamnese e exame ginecológico criterioso,
consideramos importante a realização de uma histeroscopia
diagnóstica com biópsia de endométrio para excluir
alguma patologia maligna, pré maligna ou hiperplásica.
A histeroscopia diagnóstica prévia, também vai proporcionar
uma avaliação da presença ou não de patologias concomitantes
como: pólipos, miomas, sinéquias e também vai dar
importantes informações sobre tamanho e formato da
cavidade uterina a ser operada.
A avaliação laboratorial vai depender da história
e da clínica da paciente, mas no geral é suficiente
a realização de um ECG, hemograma completo, glicemia,
coagulograma e eletrólitos (que podem sofrer grandes
alterações em caso de absorção excessiva do meio de
distensão).
Antes da cirurgia a paciente deve ser adequadamente
informada sobre que resultados esperar da cirurgia.
Devemos dizer que em 40 a 50% das vezes obteremos
amenorréia e que também em 40 a 50% dos procedimentos
será obtida oligo ou normomenorréia, sendo o índice
global de correção do SUA de 80 a 90% nas pacientes
submetidas a endometrectomia. Estes dados se referem
a pacientes em que o procedimento foi adequadamente
indicado, caso contrário, o índice de sucesso se reduz
consideravelmente. Deve também ser enfatizado a improbabilidade
de se obter gravidez após a cirurgia, embora esta
não possa ser encarada como método de esterilização..
Gestações após endometrectomias já foram relatadas.
PREPARAÇÃO DO ENDOMÉTRIO:
Para obtermos sucesso na endometrectomia é necessário
que na cirurgia a camada basal do endométrio e a interface
endo-miometrial sejam ressecadas. Só conseguimos isto,
quando trabalhamos sobre um endométrio bem fino. Devemos
programar a cirurgia para o período pós menstrual
imediato ou preferencialmente fazer uma preparação
medicamentosa do endométrio. Várias drogas podem ser
utilizadas, mas atualmente as que apresentam a melhor
relação custo X eficácia são os análogos do GnRH.
Após uma dose de um análogo de depósito, devemos operar
em um prazo de 4 a 6 semanas. Alternativamente uma
preparação mecânica pode ser realizada, através de
uma curetagem uterina vigorosa, antes de se iniciar
a endometrectomia.
MEIO DE DISTENSÃO:
Como a endometrectomia utiliza a eletrocirurgia, o
meio de distensão a ser utilizado deve ser não condutivo.
Os mais comumente usados são o sorbitol, a dextrose
5% e a glicina 1,5%. Podem ser administrados a partir
de um sistema gravitacional, através da colocação
de um manguito de um aparelho de pressão em volta
do frasco do meio de distensão ou ainda com a utilização
de um dos vários tipos de bomba de infusão em que
o meio de distensão é continuamente instilado e aspirado
da cavidade uterina. Apesar de seu alto custo, o uso
das bombas de infusão nos permite um maior controle
do emprego do meio de distensão.
TÉCNICA:
Para fazermos a endometrectomia utilizamos um ressectoscópio
de fluxo contínuo, equipado com vários tipos de alças,
como a rollerball, rollerbar e em "U", que
devem ser conectadas a um gerador eletrocirúrgico
com corrente de corte entre 50 e 100 Watts de potência.
Iniciamos o procedimento eletrocoagulando o fundo
uterino e a área em torno dos óstios tubáreos, com
o uso do rollerball ou do rollerbar. Muito cuidado
deve ser tomado em torno do óstios, pois esta área
é muito delgada e ocorre aí a maior incidência de
perfurações.
A seguir, devemos sistematizar a abordagem do endométrio
com a alça em "U",, que vai fazer um corte
de 3 a 4 mm de profundidade. Começamos pela parede
posterior, sempre trazendo lentamente a alça em direção
à ótica e nunca a projetando em direção ao fundo,
o poderia levar a um risco de perfuração. Em seqüência,
ressecamos as paredes laterais direita e esquerda
e por último a parede anterior. A formação de bolhas
de gás é comum em função da passagem da corrente elétrica
e as mesmas tendem a se acumular junto à parede anterior
do útero.
Devemos interromper a ressecção a aproximadamente
1 cm do orifício interno do colo uterino, deixando
uma pequena faixa de endométrio nessa região. Tal
cuidado destina-se a que o endométrio dessa região,
que é sabidamente pobre em receptores de estrogenio,
possa proliferar e recobrir a área ressecada, impedindo
ou minimizando a formação de sinéquias, que impediriam
uma futura inspeção histeroscópica da cavidade. Outra
vantagem, é que ao invés de uma amenorréia, vamos
ter mais freqüentemente uma oligomenorréia, o que
observamos ser de maior agrado para as pacientes.
COMPLICAÇÕES:
O índice de complicações se situa por volta de 2,5%,
sendo a maioria delas complicações de fácil correção,
quando utilizados os cuidados necessários.
¨ Perfuração uterina: é a complicação mais comum.
Quando ocorre durante a dilatação do colo, normalmente
não gera maiores sangramentos e geralmente é suficiente
a mera conduta espectante. Se há desconfiança de um
sangramento importante para a cavidade abdominal,
pode ser feita uma laparoscopia e o sangramento pode
ser facilmente controlado com coagulação bipolar.
Por outro lado, se a perfuração ocorre durante o uso
das alças de ressecção, é mandatória a realização
de uma laparoscopia para excluir possível lesão de
órgãos pélvicos e controlar sangramentos.
¨ Sangramento: Não é muito freqüente com o uso do
rollerball sobre o leito ressecado. Porém, se isto
ocorrer e o sangramento for de um lugar específico,
pode ser tentada a coagulação do mesmo com o rollerball
ou rollerbar. Caso necessário, um tamponamento da
cavidade uterina pode ser feito, colocando em seu
interior um cateter de Folley e enchendo seu balão
com 10 a 30 ml de líquido. Nesse caso, o cateter deve
ser deixado por aproximadamente 12 horas.
¨ Lesão intestinal: Pode ocorrer em caso de uma perfuração
uterina que não tenha sido percebida e o uso da alça
com corrente não tenha sido interrompido. Lesões de
intestino em útero íntegro já foram relatadas e são
muito raras, porém, nunca devem ser esquecidas quando
nos depararmos com um caso que nos sugira tal complicação.
¨ Infecções: são muito raras após uma endometrectomia,
no entanto se ocorrer uma endometrite, pode ser controlada
adequadamente com o uso de doxiciclina.
CONCLUSÃO:
Nas pacientes com SUA de causa benigna, a endometrectomia
pode oferecer uma alternativa menos invasiva que a
histerectomia.
Devemos lembrar que uma adequada indicação do método,
informação da paciente das suas vantagens e desvantagens,
índices de sucesso e de falhas a fim de não criar
falsas expectativas e principalmente um bom equipamento
e excelente treinamento do cirurgião, são fatores
fundamentais para o seu sucesso.

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