| PÓLIPOS
E MIOMAS
DR.
MARCO AURÉLIO PINHO DE OLIVEIRA
*Aula ministrada no II Curso Básico de Vídeo-Histeroscopia
Os pólipos uterinos podem ser divididos em cervicais
e endometriais.
Os pólipos cervicais são subdivididos em ectocervicais
e endocervicais. Esses pólipos são considerados como
as neoplasias benignas mais comuns do colo do útero.
Farr e Nedoss verificaram a presença de pólipos cervicais
em 4% das pacientes que freqüentam um ambulatório
de ginecologia.
Os pólipos endocervicais são mais comuns em multíparas,
com maior incidência na faixa etária dos 40 -50 anos.
Habitualmente essas neoplasias são friáveis, lisas
e regulares, sendo sua base fina e longa. O pólipo
ectocervical é menos freqüente que o endocervical,
sendo mais comum após a menopausa. Normalmente apresenta
base curta e larga.
Os pólipos cervicais podem causar sinusorragia, sangramento
intermenstrual ou metrorragia. Na maioria das vezes
podem ser diagnósticados à ectoscopia, com exceção
dos pólipos endocervicais com localização alta no
canal. O diagnóstico diferencial deve ser feito com
mioma parido, pólipo endometrial, hiperplasia glandular
endocervical ou até neoplasias malignas. A degeneração
maligna dos pólipos cervicais parece ser rara (0,3
%). Caroti e Siliotti em análise colpocitológica de
1477 pólipos endocervicais não encontraram nenhum
caso comprovado de degeneração maligna. Os pólipos
endocervicais são tratados habitualmente no próprio
consultório com torção do pedículo até o seu desprendimento.
A histeroscopia pode ser útil no diagnóstico diferencial
do pólipo endocervical alto com o pólipo endometrial.
Além disso, a histeroscopia pode auxiliar na retirada
sob visão direta utilizando-se uma pinça de apreensão
pelo canal operatório. O estudo de Coeman et al. revelou
que em pacientes com pólipo endocervical existe uma
maior incidência de pólipo endometrial, principalmente
nas pacientes pós-menopausa (41%).
Os pólipos endometriais são de maior interesse para
o histeroscopista, já que estas lesões são pouco diagnosticadas
pela curetagem ou ultra-sonografia transvaginal. Novak
e Woodruff analisando 1.100 casos de pólipos endometriais
verificaram uma maior incidência entre 40 e 49 anos.
A incidência de pólipos endometriais na população
geral é desconhecida, porém, chega a 10 % em estudos
de autópsia. Tradicionalmente existe a associação
de pólipos endometriais com hiperplasia endometrial
e até mesmo o câncer de endométrio. Cerca de 2/3 dos
pólipos são imaturos e não respondem à ciclicidade
dos hormônios. Aproximadamente 25 % das mulheres com
sangramento uterino anormal tem pólipo endometrial.
A taxa de maliginização é incerta, mas é de aproximadamente
0,5 %. Estudo feito por Patterson revelou que pacientes
portadoras de pólipos endometriais têm um risco duas
vezes maior de terem câncer de endométrio. Além disso
é sabido que pólipos endometrial pode ser encontrado
em até 20 % dos úteros removidos por câncer de endométrio.
A histeroscopia tem um papel fundamental no diagnóstico
e tratamento dos pólipos endometriais. A histeroscopia
permite precisar o número, tamanho, localização, aspecto
da superfície, coloração e tamanho da base de implantação
dos pólipos endometriais. Permite ainda o diagnóstico
de lesões associadas como o mioma uterino e o câncer
de endométrio, entre outras. A recomendação atual
é, sempre que possível, fazer a retirada dos pólipos.
Alguns casos de pólipos atróficos em pacientes assintomáticas
podem ser acompanhados pela própria histeroscopia.
A retirada histeroscópica dos pólipos pode ser feita
em nível ambulatorial ou de centro cirúrgico. Pólipos
pediculados com até 3 cm podem ser retirados ambulatorialmente
utilizando-se uma camisa operatória de 5.5 mm com
canal operatório de 2 mm. O procedimento pode ser
feito com bloqueio paracervical com xilocaína e muitas
vezes sem o uso de qualquer anestésico. A distensão
da cavidade deve ser feita com soro fisiológico (não
usar corrente elétrica). A secção da base do pólipo
deve ser feita com a tesoura e posteriormente o pólipo
é retirado com a pinça de apreensão. Caso seja difícil
sua extração, o mesmo pode ser deixado para ser eliminado
junto com a menstruação. A cirurgia deve ser realizada
no centro cirúrgico quando o pólipo for volumoso,
numerosos, pedículo séssil de difícil acesso, paciente
pouco colaborativa e/ou com extrema sensibilidade
à dor ou pela presença de lesões associadas, como
o mioma uterino submucoso. Nessas situações o meio
de distensão deve permitir o uso de corrente elétrica
(manitol, glicina, etc..), pois o método mais utilizado
é o fatiamento do pólipo com a alça do ressectoscópio.
Os miomas uterinos podem ser divididos didaticamente
em subserosos, intramurais e submucosos. Os miomas
submucosos são os que apresentam maior importância
para o histeroscopista. Esses miomas podem são uma
das principais causas de sangramento uterino anormal
no menacme e muitas vezes estão associados a uma história
de abortamento habitual. Algumas vezes a histeroscopia
é solicitada para investigação da falha de enchimento
da cavidade uterina na histerossalpingografia ou,
mais raramente, pela suspeita do mioma submucoso durante
uma ultra-sonografia transvaginal. Os miomas submucosos
podem ser subdivididos em três tipos:
1. Maior diâmetro no interior da cavidade uterina
(pediculados ou semi-pediculados)
2. Maior diâmetro no miométrio (sésseis)
3. Distorção da cavidade por múltiplo miomas (normalmente
com componentes intramurais)
A identificação do mioma por histeroscopia não costuma
ser difícil. Esses tumores benignos apresentam habitualmente
superfície lisa, similar ao endométrio circunjacente.
Se o mioma for volumoso, pode haver compressão na
parede oposta e a superfície pode se tornar fina e
atrófica. Os miomas na pós-menopausa são recobertos
por endométrio pálido e atrófico e podem não ser os
responsáveis por um eventual sangramento neste grupo
de mulheres. Às vezes não é tão fácil diferençar o
mioma submucoso de um pólipo endometrial, porém a
discussão acaba sendo mais acadêmica, porque na maioria
das vezes o tratamento é semelhante, ou seja, a ressecção
histeroscópica com posterior avaliação histopatológica.
Para o tratamento histeroscópico do mioma uterino
existem algumas opções:
1. Ressecção com laser de Nd:YAG (pouco usado no nosso
meio)
2. Ressecção com alça do ressectoscópio (mais utilizado)
3. Ressecção com tesoura e pinça de apreensão, sem
o uso da corrente elétrica (usado em mioma pediculados
não volumosos).
Existe ainda discussão sobre qual o limite de tamanho
e número de miomas que podem ser retirados pela via
histeroscópica. Outro debate é sobre o uso pré-operatório
dos análogos do GnRH. Quanto ao tamanho não existe
um consenso, porém vários autores consideram até 5
cm. Em relação ao número de miomas, um limite usado
por muitos autores é de três. Deve-se ter o cuidado
para não deixar área cruentas opostas, pois aumenta
a incidência de sinéquias no pós-operatório. Uma situação
particular é quando o mioma tem um importante componente
intramural. Nestes casos, o histeroscopista deve primeiro
ressecar a porção intracavitária e posteriormente
deve aumentar e diminuir a pressão intrauterina intermitentemente
("hidromassagem") na tentativa de fazer
aflorar a porção intramural do mioma. Caso não consiga
êxito, o cirurgião pode programar uma segunda cirurgia
histeroscópica. Na segunda cirurgia é comum que o
mioma antes intramural passe a ser cavitário pela
tentativa de expulsão do próprio miométrio.
Os análogos são usados às vezes para tentar diminuir
o tamanho do mioma e transformar uma cirurgia laparotômica
em histeroscópica (às vezes se consegue redução de
até 40% do tamanho do mioma). A miomectomia histeroscópica,
quando possível, sempre é melhor que a laparotomia,
porque além de menos agressiva, também permite o parto
transpélvico. O uso dos análogos em mioma único de
até 4 cm não parecem ter muita vantagem, como evidenciado
pelo estudo de Romer, analisando retrospectivamente
31 pacientes com este tipo de afecção.
Não se deve esquecer a taxa de recidiva após a miomectomia
histeroscópica. Isso é particularmente importante
para as pacientes com sangramento uterino anormal
e com prole completa. A dúvida é se devemos fazer
uma cirurgia conservadora, como a cirurgia histeroscópica,
ou uma histerectomia. Estudo realizado por Donnez
demonstrou uma recidiva de 9% após dois anos se o
mioma tinha algum componente intramural e de 25% após
dois anos se eram múltiplos (mesmo com a ablação endometrial
associada). A taxa de recidiva para mioma único sem
componente intramural foi de 3% em dois anos.

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