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Avaliação do Sangramento Uterino Anormal na Peri e Pós-Menopausa

Dr. Cláudio Crispi

1 - CONSIDERAÇÕES GERAIS

A avaliação precisa do sangramento uterino anormal (S. U. A), especialmente na peri e pós-menopausa, é de fundamental importância para o ginecologista, pois muitas vezes tal sangramento pode ser a manifestação inicial de uma lesão maligna endometrial.

O Aumento da expectativa de vida, a diminuição da prole, a primiparidade tardia, e o uso de terapia de reposição hormonal (TRH) são apenas alguns fatores implicados no aumento da incidência de patologias de endométrio. Tal fato nos obriga a obtermos diagnósticos cada vez mais precisos nos casos de sangramento uterino anormal (S. U. A.), a fim de sempre procedermos à conduta terapêutica mais adequada para cada caso.

2 - DIAGNÓSTICO

2.1 - ULTRASSONOGRAFIA TRANSVAGINAL: A análise de todos os métodos diagnósticos disponíveis mostra que a ultrassonografia endovaginal tem importante papel no "screening", por ser um exame de baixo custo e pouco invasivo, capaz de selecionar as pacientes com espessamento endometrial, classificando os casos em: não patológico, suspeito ou patológico, sendo que os casos suspeitos e patológicos necessitarão de investigação adicional.

Existem várias correntes para estabelecer o que seria patológico ou não ao ultrassom, tendo ficado estabelecido que em pacientes não usuárias de T.R.H, o endométrio normal deve ter até 5 mm, ser de aspecto homogêneo e de baixa ecogenicidade. Já em usuárias de T.R.H. admite-se até 10 mm de espessura. Alterações isoladas na morfologia do endométrio tornam o exame suspeito, sendo necessário estudo complementar.

2.2 - BIÓPSIA ENDOMETRIAL: É um método realizado às cegas, não permitindo realizar biópsia de lesões focais, tornando-se impreciso para o diagnóstico de pólipos, miomas, e um número significativo de hiperplasias de endométrio.

2.3 - CURETAGEM UTERINA FRACIONADA: É ainda o método mais utilizado em nosso meio, porém também é feito às cegas, necessita de internação hospitalar (elevando assim sua relação custo/benefício), tendo ainda um alto índice de falsos negativos (em torno de 20 a 30%). Pode também levar a uma grande quantidade de complicações como hemorragias, perfurações, infecções, microfratura cervical, sinéquias, infertilidade e alterações de inserção placentária.

2.4 - VÍDEO-HISTEROSCOPIA: É um método com 98 % de sensibilidade e 100 % de especificidade, pois permite a visualização direta da cavidade uterina, permitindo uma grande acuidade diagnóstica em lesões benignas e malignas, especialmente as lesões focais - inclusive as localizadas nos óstios tubários, quase nunca alcançadas por outros métodos. Permite a realização de biópsias dirigidas ou orientadas, e facilita a classificação das hiperplasias em simples ou complexas, com ou sem atipias. Não necessita hospitalização, quase nunca requer anestesia, e não afasta a paciente do seu ambiente sócio-profissional tornando sua relação custo/benefício 52 % menor se comparada à curetagem uterina fracionada.

3 - ETIOLOGIA

LEIOMIOMAS

Dentre as causas de S.U.A. temos os leiomiomas, que, dependendo de sua localização podem ser intramurais provocando distorções no aspecto regular da cavidade, ou submucosos que podem ser sésseis ou pediculados. Geralmente o endométrio que os recobre costuma ter coloração pálida e com grande vasos sanguíneos superficiais, podendo quase sempre ser abordados por via vídeo-histeroscópica.  

PÓLIPOS

Podem ser glandulares, císticos ou fibrosos, de vários tamanhos, únicos ou múltiplos, pediculados ou sésseis. Sua cor é semelhante à do endométrio circunvizinho, com exceção dos fibrosos, que costumam ser pouco vascularizados, lisos e firmes. A simples polipectomia pode ser suficiente para o desaparecimento da hemorragia.

ADENOMIOSE

Só é confirmada após exame histopatológico, porém sua presença pode ser orientada pela presença de máculas submucosas escuras e elevadas.

ATROFIA

A Atrofia do endométrio possibilita o afloramento dos vasos da camada basal, o que em determinados momentos pode favorecer a hemorragia.

HIPERPLASIA

Necessita confirmação histopatológica, porém o aspecto vídeo-histeroscópico nos permite com notável eficácia dar diagnósticos de presunção das diferentes formas de hiperplasia.

ADENOCARCINOMA DE ENDOMÉTRIO

Surge como lesões circunscritas ou difusas, que podem afetar apenas o corpo ou prolongar-se até o canal cervical, sendo geralmente necróticas e hipervascularizadas.

OUTROS

Na etiologia do S.U.A. na pós-menopausa temos ainda o uso de estrogênios exogenos, câncer cervical, sarcomas uterinos, traumas, entre outros.

4 - TRATAMENTO CLÍNICO

Geralmente utilizado a curto prazo, especialmente em mulheres jovens que ainda desejam engravidar, em mulheres muito anêmicas que estão aguardando cirurgia, ou ainda como preparo do endométrio para alguns procedimentos vídeo-histeroscópicos (Ex. ablação endometrial). Pode ainda ser indicado para mulheres na perimenopausa, mas, caso a paciente vá fazer uso posterior de TRH, um tratamento definitivo deverá ser a opção mais adequada.

As formas mais utilizadas de tratamento clínico são:

4.1 - INIBIDORES DE PROSTAGLANDINAS
É usado somente durante a menstruação, reduzindo em 50% as perdas sangüíneas estimadas pela paciente. Tem como vantagem reduzir também os quadros de dismenorréia e cefaléia. Produzem em 30 a 40 % dos casos, efeitos colaterais como náuseas, vômitos e desconforto abdominal. O índice global de adesão ao tratamento é baixo, com poucas mulheres dispostas a mantê-lo por mais de 3 ou 4 ciclos

4.2 - AGENTES ANTIFIBRINOLÍTICOS
São necessárias altas doses de ácido epsiloaminocaproico (25 mg ao dia) ou ácido traxenâmico ( 1g 4 vezes ao dia) para obtermos o efeito desejado. 50% das pacientes desenvolvem efeitos colaterais inaceitáveis, com um caso de trombose intracraniana já relatada.

4.3 - ESTERÓIDES OVARIANOS:
São eficazes no controle dos quadros agudos e intensos, como nas terapias a longo prazo. Pode-se interromper as hemorragias agudas pela administração intravenosa de estrogênios eqüinos conjugados (PREMARINâ ), na dose de 25 mg, a cada 4 horas ou via intramuscular a cada 8 horas em casos mais brandos. Com a cessação de hemorragia o controle a longo prazo geralmente é feito com uso de contraceptivos orais combinados principalmente em não fumantes, reduzindo as perdas sangüíneas em 43% em 60 a 80 % da pacientes. Nas pacientes mais velhas, ou naquelas em que são contra-indicados os contraceptivos orais, o acetato de medroxiprogesterona, pode ter algum valor nos episódios não agudos, podendo ser ministrado por via oral ou intramuscular. Além disso alguns dos mais recentes dispositivos intra-uterinos (DIU) com progestagênios, podem ser empregados com bons resultados, pois reduzem em 86 % em 3 meses os sangramentos, elevando-se para 97 % esta redução após 12 meses.

Os esquemas mais utilizados para o uso do acetato de medroxiprogesterona são:

  • Caso se suspeite que a paciente não esta ovulando pode-se fazer a reposição lútea, pela administração da droga entre o 16º e o 25 º do ciclo.
  • Pode-se reduzir o crescimento endometrial com a utilização do medicamento, entre o 5º e o 25 dia do ciclo.
  • Ou o uso contínuo da medicação para produzir uma supressão endometrial, maneira esta muito útil no preparo para ablação endometrial.

Infelizmente o índice de efeito colaterais com qualquer um destes esquemas, é alto, como ganho de peso, náuseas, edema, diminuição da libido e os sangramentos de escape, levando a baixa taxa de adesão a longo prazo.

4.4 - DANAZOL:
É um derivado sintético da testosterona, que atua a nível hipofisário, ovariano, e endometrial, reduzindo a espessura do endométrio. É usado na dosagem de 200 a 400 mg/dia. Seus principais efeitos colaterais incluem ganho de peso, cansaço, dores musculo-esqueléticas e cefaléias, sendo importante ressaltar a ausência de efeitos sobre o sistema de coagulação, tornando portanto seguro o seu uso em mulheres acima de 40 anos. Geralmente um efeito residual benéfico pode persistir por 3 a 4 ciclos após a interrupção do medicamento, o que permite tratamentos intermitentes a longo prazo.

4.5 - OS AGOSNISTAS DO GnRH:
São muito úteis quando se deseja produzir um estado de completa amenorréia. Porém ainda são muito caros, apesar da recente redução de seus valores. Sua principal função é permitir um preparo adequado das pacientes anemiadas antes das cirurgias, e comprovadamente são os mais eficazes na redução do volume e vascularização dos miomas e do endométrio, porém estes efeitos cessam rapidamente após a interrupção do tratamento. O maior efeito hipoestrogênico é geralmente alcançado após o uso da 3 º ampola. Causam sintomas climatéricos, podendo levar à perda de massa óssea e alterações nos níveis lipídicos.

5 - TRATAMENTO CIRÚRGICO

Outra forma de tratamento é o cirúrgico. Dentre as cirurgias realizadas temos as já utilizadas a longo tempo, e outras, que estão surgindo como opção nos últimos 10 anos, e que em alguns centros, já tem se tornado não a segunda, mas a primeira opção na abordagem do S.U.A..

5.1 - CURETAGEM TERAPÊUTICA:
É um procedimento muito utilizado nas terapias emergenciais, principalmente quando falha a tentativa com o uso dos estrogênios eqüinos conjugados. Não é utilizado como terapia definitiva na grande maioria dos casos pois não remove a camada basal do endométrio, favorecendo a recorrência dos sintomas em curto espaço de tempo

5.2 - HISTERECTOMIA:
Ainda constitui o tratamento cirúrgico mais comum nos casos de menorragia em nosso país. Nos países Europeus e na América do Norte casos de menorragia correspondiam a 60 % das indicações de histerectomia, antes do advento da ablação do endométrio.

Como a histerectomia é um procedimento seguro e eficaz (já que remove a origem do problema - o útero), continua ainda imperando nas indicações terapêuticas em nosso meio. Temos no entanto, como pontos negativos a curto prazo, os períodos mais longos de hospitalização, assim como uma recuperação mais demorada da paciente - em torno de 6 a 8 semanas. A longo prazo pode ocasionar problemas de natureza climatérica, sexual ou psicológica.

Atualmente, com as histerectomias laparoscópicas ou vaginais assistidas por laparoscopia, alguns deste inconvenientes tem sido sistematicamente amenizados especialmente no que se refere ao período de hospitalização e de recuperação da paciente. Ainda assim, alguns autores consideram este tipo de tratamento super-dimensionado para a maioria dos casos de S.U.A.

5.3 - CIRURGIAS VÍDEO-HISTEROSCÓPICAS
Dispõem de varias técnicas, e todas têm em comum, como vantagem, se comparadas à histerectomias, seus baixos índices de complicações, período de hospitalização curto, em torno de 12 a 24 h., e tempo de recuperação de 1 a 2 semanas, além de uma redução nos custos de tratamento que levaria uma economia para o sistema de assistência médica de 9 milhões de dólares, se 80% das histerectomias fossem substituídas pela técnica de ressecção/ablação endometrial.

5.3.1 - POLIPECTOMIAS:
Isoladamente podem ser o tratamento definitivo em vários casos, porém como são tumores de camada basal e ocorrem principalmente nas pacientes climatéricas, a associação das polipectomias com ablação de endométrio para remover esta camada, é de boa técnica, favorecendo o uso de TRH a longo prazo para estas pacientes.

5.3.2 - MIOMECTOMIAS:
Podem ser abordadas tanto por Vídeo-laparoscopia com por Vídeo-histeroscopia, e em ambas situações são resolutivas na grande maioria dos casos, podendo também sempre que possível ser associada à ablação endometrial, para evitar uma possível histerectomia

5.3.3 - ABLAÇÃO DO ENDOMÉTRIO:
Estaria principalmente contra-indicada nas pacientes portadoras de útero muito volumosos (histerometria > que 12 cm) e nos casos de adenomiose acentuada acompanhada de dores severas. Os resultados são considerados excelentes em 90 % dos casos, sendo que 6 % podem necessitar de um segundo procedimento, com um índice de satisfação nestes casos de 97%, sendo somente indicados 3% dos casos para histerectomia.

As principais técnicas de ablação de endométrio são:

  • Ressectoscópio: é a forma mais utilizada em nosso meio, tendo como principais vantagens o seu custo muito reduzido, e a possibilidade de enviar material para estudo histopatológico. É procedimento tecnicamente seguro, especialmente se trabalhamos com equipe bem treinada e auxiliados por bomba infusora.
  • Laser: ainda é de utilização muito restrita devido ao seu alto custo. Uma de suas desvantagens é não permitir o estudo histopatológico do endométrio ablado
  • Balão endotérmico: Está sendo testado em vários centros, e tem como principais vantagens a possibilidade de ser realizado em ambulatório, com anestesia para-cervical. Ainda requer estudos a mais longo prazo para avaliar seus resultados. Consiste na introdução de uma solução através de um balão, o qual é aquecido, queimando o endométrio de uma maneira homogênea.

6 - CONCLUSÃO

A avaliação precisa do S.U.A. tornou-se imperativa nos dias atuais, especialmente ao tratarmos de pacientes na peri e pós-menopausa. Para isso podemos lançar mão de vários métodos propedêuticos, alcançando assim um diagnóstico preciso e procedendo posteriormente, ao tratamento mais indicado para cada caso.

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